Banco de Edir Macedo usou fundos para esconder perdas milionárias, aponta auditoria

Documentos revelam que o Digimais transferiu créditos podres a fundos próprios para mascarar prejuízos.

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O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, utilizou fundos de investimento para retirar créditos podres de seus balanços e evitar o registro de prejuízos milionários relacionados à inadimplência em financiamentos de veículos. A informação foi revelada por documentos de auditoria obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo os documentos, o banco transferiu carteiras de crédito consideradas problemáticas, principalmente financiamentos de veículos com altos índices de inadimplência, para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) exclusivos. A operação permitiu ao Digimais registrar lucro líquido de R$ 31 milhões em 2025, mas pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos deixaram de ser contabilizados diretamente no balanço, gerando ressalvas de auditores independentes.

O Digimais é um banco pouco conhecido do público, sem agências físicas e que atualmente nem oferece operações via Pix. Até 2020, chamava-se Banco Renner, ligado à família fundadora das Lojas Renner. Edir Macedo, acionista desde 2009, assumiu o controle total em 2020 e mudou o nome para Digimais. O principal negócio da instituição é o financiamento de veículos, com atuação crescente no crédito consignado.

Um dos fundos usados na operação é o FIDC Tabor, que conta com participação do próprio Digimais. Em abril de 2026, o fundo tinha R$ 960 milhões em carteiras de crédito, dos quais R$ 575 milhões estavam inadimplentes — quase 60% do total. Mais de R$ 200 milhões correspondem a dívidas vencidas há até dois anos. Apesar disso, parte relevante dessas perdas não aparece discriminada nas demonstrações financeiras do banco.

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Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que o nível de inadimplência do fundo é crítico. O perito contábil Alexandre Ripamonti destacou que fundos com mais de 50% de inadimplência normalmente caminham para encerramento devido à baixa perspectiva de recuperação. Analistas avaliam que o uso dos FIDCs pelo Digimais foge do padrão de mercado. Para Gabriel Uarian, especialista em investimentos, a transferência agressiva de créditos problemáticos para fundos indica dificuldades na gestão da carteira.

Além disso, a holding ligada a Edir Macedo comprou R$ 741 milhões em cotas de outro fundo, o Hermon, que tem como principal ativo uma disputa judicial bilionária envolvendo indenizações relacionadas à antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, incorporada durante o governo Getúlio Vargas no processo de criação da Vale do Rio Doce. O fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber, mas o caso tramita há décadas na Justiça e ainda enfrenta controvérsias sobre os cálculos de pagamento.

Os documentos revelam que o Digimais transferiu carteiras de crédito com altos índices de inadimplência para FIDCs. Na prática, isso permitiu retirar essas dívidas problemáticas do balanço oficial do banco, reduzindo artificialmente o impacto dos prejuízos e melhorando os resultados financeiros apresentados ao mercado. O ponto que mais chama atenção é que o próprio Digimais aparece como investidor de alguns desses fundos. Ou seja: o banco vende os créditos problemáticos para estruturas financeiras das quais ele mesmo participa, um tipo de operação conhecido no mercado como “Zé com Zé”.

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Dessa forma, os ativos saem oficialmente do balanço, dando a impressão de que foram vendidos para terceiros independentes. Na prática, a situação financeira real da instituição pouco muda, mas os balanços divulgados passam a mostrar uma imagem mais saudável. Especialistas afirmam que esse tipo de estrutura também dificulta a identificação dos riscos reais por auditores e investidores.

O financiamento de veículos sempre foi o principal negócio do Digimais. Em 2021, esse segmento representava 94% da carteira de crédito do banco. Segundo lojistas ouvidos pelo Estadão, o Digimais costuma aprovar financiamentos de carros antigos, baratos e para clientes já endividados, operações consideradas mais arriscadas no mercado. Os juros cobrados estão entre os mais altos do país. Em dezembro de 2025, o banco registrou taxa de 2,97% ao mês no financiamento de veículos, equivalente a 41,07% ao ano, segundo dados do Banco Central.

Enquanto enfrenta questionamentos sobre sua situação financeira, o Digimais negocia uma possível venda ao BTG Pactual. Em nota ao Estadão, o BTG informou que assinou documentos vinculantes para uma potencial aquisição do banco, principalmente de sua carteira de clientes. A operação, porém, ainda depende de leilão, condições financeiras e possível participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). “A operação não foi concluída e deverá ocorrer por meio de leilão. A eventual transação também depende de mecanismos de suporte financeiro, incluindo a participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”, disse o banco ao Estadão.

Fonte: Jovem Pan

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